A VERRUGA e Outros Contos QueerFialho de Almeida
Clássicos de Literatura Gay / 21
"Fialho de Almeida foi uma figura controversa, e embora deixando uma obra importante, esteve sempre sob comentários pouco abonatórios por não ter escrito um grande romance, ou simplesmente por parte daqueles que não leram os seus textos, e por isso se apegam ao mais fácil, que são as referências ao casamento rico, aos maus‑tratos que infligia à mulher, à sua extravagância, à tendência homossexual, etc., a vulgaridade que tem contribuído para o minimizar, enquanto a obra foi ficando esquecida e não valorizada. Exceções importantes são as vozes dos que têm vindo a apostar no estudo de Fialho, na reinterpretação dos seus textos, e em conferir ao autor e à obra a dignidade que merecem." (fonte: Associação Cultural Fialho de Almeida)
António Fernando Cascais observa que "a breve insinuação que Camilo Castelo Branco faz sobre a vida sexual de uma personagem secundária de A Corja (1880) parece bem mais complacente, mas Fialho de Almeida volta a ser pouco empático nos contos A Verruga, Miss Ellen (1890) e O Funâmbulo de Mármore (1881), e menos ainda na descrição do ambiente crepuscular do engate masculino em Lisboa no conto De Noite (1890), em contraste com as suas exaltantes descrições da beleza masculina noutras obras, que antecipam as muito posteriores de Manuel Teixeira Gomes. Uma leitura atenta mostra que Fialho conhecia por íntima experiência aquilo de que falava, mas o segredo mal guardado do seu armário pessoal só muito mais tarde viria a ser escancarado, preto‑no‑branco, por Fernando Pessoa. Com Fialho, que era médico, a linguagem higienista do desvio, da anormalidade e da degenerescência começa a penetrar no discurso literário, para se impor definitivamente com Abel Botelho, no seu O Barão de Lavos (1891) e, logo, em Sáficas (1902) e O Senhor Ganimedes (1906), de Alfredo Gallis." (fonte: Dicionário de Literatura Gay, Lisboa: INDEX ebooks, 2022). Esta antologia de contos queer de Fialho de Almeida reúne os contos:
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EXCERTOS
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— Andas à procura de namorado — acudiu a outra, em voz seca. — Era tempo!
— Não é isso — ia dizendo Margarida, distraída. — Mas hás de confessar que é secante falar toda uma noite com o Joãozinho, ou com esse teu primo delegado, que parece cair da boca aos cães. Esse inglês, nada de afetado, de gasto, ou doentio. Olhou a outra de soslaio, com um mau riso que lhe fazia adejar as narinas, pálidas de súbito. E muito devagar: — Casava com ele, palavra! — Afinal, que tenho eu com isso? Por amor desse príncipe é que tu me chamaste?... Mas Margarida continuava alto: — Como será bom ter um pequerrucho de homem que se ame! Os filhos são o amor dos pais feitos escultura, e a escultura tornada vida à força de paixão. Nos pormenores dessa obra de arte — os deditos, os pezitos, as pernitas, a boquita, os olhinhos — nem um bocadinho que não seja colaboração de duas veemências igualmente sublimes — e cingia‑lhe bruscamente a cinta. — Gostavas de ter um filho? Laura então pôs‑se a fitá‑la com uma ternura infinita — os seus lábios tiveram sobre os de Margarida um leve roçar de buços loiros, uma troca de hálitos apenas suspirosos — e deslumbrada ave, vencida por um falcão, a pobre pequena ia‑lhe desfalecendo no peito, doce, muito docemente. |
— Mas tu — dizia Laura que se tinha assentado numa atitude lassa, com a sombrinha japonesa aberta sobre o ombro, e desapertando da garganta o tufo de renda da gravata — tens a certeza de amar esse rapaz?
— Certeza, certeza... — disse a outra. — E ele? Conhece‑lo? — Mal. — Tem meneios de cocotte. Ama‑te um pouco, ao menos? — Se mo disse!... — Então duvida, minha filha. — Não percebo. Duvidar!... — Pressentimentos. Não o achas frio? — Um inglês é sempre calmo. — Ator... efeminado... — Antigamente. Agora não. E é tão bonito! Sim, um quase nada contemplativo, e com feitios de rapariga... Tem a doçura dos loiros, que parece feita de músicas e langores. A voz, sobretudo. Que melodia triste, a das suas abstrações! E não lhe reparas na boca? É de noiva. E na brancura da sua pele, na ligeireza da sua cinta, eu leio a complicada anemia que faz a condenação e a divindade de um fim de raça aristocrática. Porque ele é nobre. Laura não deu resposta: tinha flechas de ciúme nas pupilas, e os cantos da boca comprimidos de perversas admoestações. Excerto do conto A Verruga. |
SOBRE O AUTOR
fIALHO DE ALMEIDA
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José Valentim Fialho de Almeida foi jornalista e escritor. Nasceu em Vidigueira, no dia 7 de maio de 1857, e morreu em Cuba (Portugal), no dia 4 de março de 1911. Colaborou em diversas publicações periódicas, nomeadamente em jornais humorísticos e revistas. Entre as suas obras mais notáveis, encontram-se os cadernos periódicos Os Gatos, redigidos entre 1889 e 1894.
À direita, detalhe do retrato de Fialho de Almeida (1891) pintado Columbano Bordalo Pinheiro (fonte: Wikipédia, em domínio público) |
FICHA TÉCNICAA Verruga e outros Contos Queer, de Fialho de Almeida.
1ª edição, 2025, Revisão e notas: João Máximo, Luís Chainho e Patrícia Relvas. Copyright © João, Máximo e Luís Chainho, 2025. 110 páginas. Todos os direitos reservados. ISBN: 979-8230666981 (ebook) ISBN: 979-8308448433 (papel capa mole) |
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