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A CONFISSÃO DE LÚCIO

Mário de Sá-Carneiro
Clássicos de Literatura Gay  /  ​25
A Confissão de Lúcio é uma das obras mais importantes de Mário de Sá-Carneiro e um dos mais importantes romances do Modernismo português. Narra a história da complexa relação amorosa, sexual e psicológica entre o triângulo Lúcio, Marta e Ricardo. A relação é analisada por alguns estudiosos como Ricardo sendo "o outro" de Lúcio e Marta sendo a ponte de ligação entre eles. Numa breve introdução, o narrador, Lúcio, assumindo-se como autor, justifica o seu objetivo: confessar-se inocente após ter cumprido os dez anos de prisão a que fora condenado pelo assassínio do seu amigo Ricardo de Loureiro. O narrador promete dizer toda a verdade, “mesmo quando ela é inverosímil”, sobre essa morte ocorrida em circunstâncias misteriosas e sem testemunhas, mas considerada judicialmente como um “crime passional”.

“Se A Confissão de Lúcio não é o primeiro romance a tratar da homossexualidade em língua portuguesa, é o primeiro a mostrar a homofobia interiorizada e o ódio por si próprio que lhe é concomitante. Com efeito, como aponta Fernando Arenas, «Marta é necessária para manter a aparência de um desejo heterossexual e identidade de género estáveis»; para permitir ao desejo homossexual existir num universo heteronormativo e homofóbico tem que passar pelo «outro sexual», a mulher. Contudo, essa relação e o desejo fora da norma nunca são assumidos por Lúcio, que tenta assim preservar a sua identidade de género e sexual, sem no entanto preservar a sua integridade psíquica. Se, no início da novela, recupera a liberdade, continua na sua prisão íntima: a heterossexualidade obrigatória.” --- Fernando Curopos, “O «inter-dito» de «A Confissão de Lúcio»” (Telhados de Vidro, Lisboa, n.º 19, 2014)

“Sá-Carneiro não foi, decerto, imune a certos estereótipos, sobretudo os que dizem respeito ao feminino. (...) Esta imagem estereotipada de feminilidade parece contaminar a caracterização de muitas das figuras masculinas criadas por Sá-Carneiro, dotando-as de traços ditos efeminados. Ao leque de sexualidades que os seus sujeitos expõem, os mecanismos reguladores não podiam obviamente ser alheios e, assim, é inevitável que, na sua obra, se detete, em pano de fundo, uma reação ao modelo que organizava o pensamento dos inícios do século XX: o identitário. A consciência do desvio existe agudamente nas vozes que falam os textos de Sá-Carneiro e os exemplos são numerosos. Um dos mais expressivos encontra-se em A Confissão de Lúcio, quando Ricardo diz a Lúcio: «Ai como eu sofri... [...] eu queria vibrar esse teu afeto [...] e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse... [...] mas como possuir uma criatura do nosso sexo?»”. --- Ana Luísa Amaral, “«Durmo o Crepúsculo»: lendo a poética de Mário de Sá‑Carneiro – a partir das teorias contemporâneas sobre as sexualidades” (Subjetividades em devir: estudos de poesia moderna e contemporânea, Rio de Janeiro: 7Letras, 2008)
 
“«A Confissão de Lúcio» (…) é a narrativa que «para todos os efeitos» faz arrancar «o cânone contemporâneo, português e homossexual»”. --- Eduardo Pitta, Fractura, a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea (Coimbra: Angelus Novus, 2003)

​Fonte: "A Confissão de Lúcio", in Dicionário de Literatura Gay, 7.ª ed., Lisboa: INDEX ebooks, 2022.
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EXCERTOS

 
Capítulo II

          (...)
​          Entanto, eu admirava-me do rumo que a conversa tomara. Com efeito, se a obra de Ricardo de Loureiro era cheia de sensualismo, de loucas perversidades — nas suas conversas nada disso surgia. Pelo contrário. Às suas palavras nunca se misturava uma nota sensual — ou simplesmente amorosa — e detinham-no logo súbitos pudores se, por acaso, de longe se referia a qualquer detalhe dessa natureza.
          Quanto à vida sexual do meu amigo, ignorava-a por completo. Sob esse ponto de vista, Ricardo afigurava-se-me, porém, uma criatura tranquila. Talvez me enganasse... Enganava-me com certeza. E a prova — ai, a prova! — tive-a essa noite pela mais estranha confissão — a mais perturbadora, a mais densa...
          Eram sete e meia. Havíamos subido todos os Campos Elíseos e a Avenida do Bosque até à Porta Maillot. O artista decidiu que jantássemos no Pavilhão de Armenonville — ideia que eu aplaudi do melhor grado.
          Tive sempre muito afeto ao célebre restaurante. Não sei... O seu cenário literário (porque o lemos em novelas), a grande sala de tapete vermelho e, ao fundo, a escadaria; as árvores românticas que exteriormente o ensombram, o pequeno lago — tudo isso, naquela atmosfera de grande vida, me evocava por uma saudade longínqua, subtil, bruxuleante, a recordação astral de certa aventura amorosa que eu nunca vivera. Luar de outono, folhas secas, beijos e champanhe...
                                                   
          Correu simples a nossa conversa durante a refeição. Foi só ao café que Ricardo principiou: 
          — Não pode imaginar, Lúcio, como a sua intimidade me encanta, como eu bendigo a hora em que nos encontrámos. Antes de o conhecer, não lidara senão com indiferentes — criaturas vulgares que nunca me compreenderam, muito pouco que fosse. Meus pais adoravam-me. Mas, por isso exatamente, ainda menos me compreendiam. Enquanto que o meu amigo é uma alma rasgada, ampla, que tem a lucidez necessária para entrever a minha. É já muito. Desejaria que fosse mais; mas é já muito. Por isso hoje eu vou ter a coragem de confessar, pela primeira vez a alguém, a maior estranheza do meu espírito, a maior dor da minha vida...
          Deteve-se um instante e, de súbito, em outro tom: 
          — É isto só: — disse — não posso ser amigo de ninguém... Não proteste... Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos — já lhe contei — apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar... de estreitar... Enfim: de possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, por consequência, é que as minhas próprias ternuras, nunca as senti, apenas as adivinhei. Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.

​(...)
Capítulo V

     ​(...)
     De resto, as imprudências de Marta não conheciam limites.
     Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de que qualquer criado nos poderia descobrir — ou mesmo o próprio Ricardo, que muitas vezes, de súbito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não pudesse acontecer — tal como se nós nos não beijássemos...
 
           Aliás, se havia alguém bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira tão satisfeito, tão bem-disposto.
          Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por completo — como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.
          As suas antigas complicações de alma, essas, mal eu chegara a Lisboa, logo ele me dissera que já não o desolavam — pois que, nesse sentido, a sua vida se limpara.
          E — facto curioso — justamente depois de Marta ser minha amante é que tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa disposição — o seu orgulho, o seu júbilo, o seu triunfo...
 
          As imprudências de Marta aumentavam agora dia a dia.
          Numa audácia louca, nem retinha já certos gestos de ternura, a mim dirigidos, na presença do próprio Ricardo!
          Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava — nunca os via; ou, se os via, era só para se rir, para os acompanhar.
          Assim, uma tarde de verão, lanchávamos no terraço, quando Marta, de súbito — num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples brincadeira agarotada — me mandou beijá-la na fronte, em castigo de qualquer coisa que eu lhe dissera.
          Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me trémulo de medo, estendi os lábios, mal os pousando na pele...
        E Marta: 
          — Que beijo tão desengraçado! Parece impossível que ainda não saiba dar um beijo... Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu...
          Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim... tomou-me o rosto... beijou-me...
                   
          O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira.
 (...)

SOBRE O AUTOR

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Mário de Sá-Carneiro
Foto: Wikipédia, aqui.

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Mário de Sá-Carneiro “é um dos nossos maiores poetas do Modernismo, talvez o que melhor exprime a cisão do sujeito na enunciação de si próprio e na formulação da sua perceção do mundo, ora decetiva ao jeito simbolista-decadentista, ora inebriada pelas sensações e entusiasmos do futurismo.” — Instituto Camões, 2001
SABER MAIS

FICHA TÉCNICA

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

1ª edição, 2025, Revisão e notas: João Máximo e Luís Chainho.
Copyright © João, Máximo e Luís Chainho, 2025.
141 páginas.
Todos os direitos reservados.

ISBN:  979-8293455256 (papel capa mole)
ISBN:  979-8293586189​ (papel capa mole)

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