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FLORÊNCIO

Ladislau Batalha
Clássicos de Literatura Gay  /  ​27
Florêncio Penedo era, desde pequeno, muito beijoqueiro, preferia brincar com bonecas e passava horas sem fim a vestir e despir roupa de mulher. O padrasto achava que o rapaz lhes estava a sair “muito maricas”. Já crescido, na flor da idade, não queria trabalhar e passava o tempo nos cafés com amigos, rapazes muito imberbes e bem vestidos. Antes de sair, frisava o cabelo, punha pó-de-arroz e perfumava-se muito. Sem lhe conhecer namorada, o padrasto dizia que estava “o mesmo maricas que dantes”.

Adélia Faria era a mais nova, e talvez a mais formosa, das três filhas de D. Apolinária, viúva abastada de um militar de alta patente. Ainda solteira, mas já em idade casadoira, a sua educação rígida e formal fazia com que fosse inibida e acanhada na presença de pretendentes. Quando Florêncio, um dia, cumprimenta Adélia com um aperto de mão mais pronunciado do que o socialmente esperado, desperta-lhe desejos que a donzela nunca sentira antes, e ela apaixona-se loucamente por ele.

Apesar de avisada pelos cunhados, de que Florêncio se passeava com “modos efeminados, saracoteando um pouco os quadris com muita afetação para melhor dar nas vistas” e de que “assesta o monóculo, não para admirar as qualidades plásticas de uma mulher, mas a elegância de algum efebo vestido à última moda”, Adélia aceita o pedido de casamento de Florêncio, pressionado pelos pais, desejosos de garantir desafogo financeiro para a velhice.

Mas os sonhos da inocente Adélia, com beijos ardentes e abraços apertados, com as venturas de um matrimónio com filhos, depressa são desfeitos...

Ladislau Batalha vê a homossexualidade pelos olhos da medicina coeva: uma patologia (uma “pecha hereditária”) que afeta a natural virilidade masculina, resultando em homens efeminados e incapazes de cumprir o desígnio da Natureza de “perpetuar a espécie”. Florêncio é filho de mãe alcoólica e “pai incógnito”, por isso destinado a ser “defeituoso”. Casa por conveniência, mas, falhado o casamento, e tal como acontece ao barão de Lavos, começa a definhar: embebeda-se, recorre a afrodisíacos e quase enlouquece: apresenta “maneiras desvairadas” e “olhar vago e quase embaciado”, perde-se “em tresloucadas cogitações, falando só, como se doido fosse” e “até os garotos da rua já o apupavam!”. Finalmente, desesperado, decide suicidar-se, mas não tem coragem!

Não se limitando a referir explicitamente as fontes da scientia sexualis que consultou (em nota de rodapé, o autor refere os médicos franceses Charcot et Magnan, Renaudin e Bayard, bem como o pioneiro Krafft-Ebing, e também o Amor Sáfico e Socrático, de Arlindo Camilo Monteiro, e A Vida Sexual, de Egas Moniz), Batalha fecha o seu romance com uma “sentença” proferida precisamente por um médico, o dr. Austero Saraiva, chamado como uma espécie de “juiz conselheiro” a uma reunião familiar em que se discute a situação do casal. Segundo o dr. Austero, mais do que as praxes do Registo Civil ou da Igreja, é necessária a intervenção de um “médico higienista” no casamento, para evitar a degenerescência social e da espécie, porque “a instituição da família não poderá ficar estacionária perante os infinitos progressos da ciência, da arte, do trabalho e da filosofia”, e deve fazer do “amor um instinto e nunca um negócio”, uma vez que “o objetivo moral do casamento é a perpetuação da espécie, dotando-a de filhos sadios e ilustrados.”

​Apesar de, possivelmente, ter acompanhado o célebre episódio da "literatura de Sodoma", Ladislau Batalha prefere encarar a homossexualidade como uma patologia, tal como já vinha defendendo a ciência médica, não sendo sensível à poesia de António Botto nem aos argumentos de esteticismo que Fernando Pessoa e Raul Leal usaram em sua defesa. Os livros de Botto acabaram apreendidos e queimados, e, tal como com o barão de Abel Botelho, mas quatro décadas depois, o personagem homossexual de Ladislau Batalha acaba na miséria financeira, moral e social.
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EXCERTOS

 
Capítulo I

     (...)
​     A não serem estes casos, marido e mulher distraíam-se com as gracinhas de Florêncio, embora nem sempre ele se revelasse muito normal.
     — Este nosso pequeno, ponderava o padrasto, vai-nos saindo muito maricas, não te parece?
     — Mas faz coisas com muita graça, tornava a esposa. Não achas também? E é muito meu amiguinho. Abraça-me, aperta-me, cobre-me de beijos a todas as horas...
     — É beijoqueiro.
     — Até mesmo de noite, assim que acorda, logo chama por mim...
     — Acho naturalíssimo, e tu, como boa mãe que és, logo lhe correspondes. Só me admiro que o pequeno não se entretenha com arcos, tambores, soldadinhos e cavalos, como os outros rapares de cinco anos, seis e mais.
     Tentou a mãe explicar:
     — É que nas famílias com que nos visitamos há mais meninas do que rapazes.
     — E na mestra onde ele anda aprendendo a ler? obtemperou Desidério. À hora do recreio foge dos condiscípulos como o demónio da cruz. O que ele quer é meninas e bonecas. Até se esquece do lunch só para ter o prazer de vesti-las e despi-las. Enfeita-as, arma-lhes os laços, cobre-as de beijos... Mas soldados de chumbo... nem vê-los!
     — Que tem isso para o caso?
     — Nada! nada absolutamente! tornou o marido. — Julgará ele, porém, que é menina? Bem vês, Gertrudes, que o nosso Florêncio já vai tendo idade para não ser beijoqueiro. Quando acontece levá-lo aos jardins públicos, não se junta aos outros rapazes da sua idade, não corre com eles, não gosta de brincadeiras de mãos...
     — Isso ainda é o melhor que ele pode ter! observou D. Gertrudes.
     — Detesta mesmo os divertimentos desportivos! continuou o marido. Em casa entretém-se horas esquecidas a vestir e despir fatos de mulher. Já o tenho surpreendido com os teus vestidos e com as saias das criadas... Também é muito amigo de coser e de bordar... 
     —Criancices! exclamou D. Gertrudes. Enquanto for só isso, por ele não virá mal ao mundo. O pior é que o vejo pouco desenvolvido e de cor sempre muito macilenta.
     — Também já tenho notado isso! confirmou o padrasto, meneando a cabeça como quem sente receio de que sejam maus indícios.
(...)
Capítulo IV

     (...)
     Interrogado pelos amigos que o rodeavam, a propósito de uns frívolos ciúmes provenientes do calor da despedida, foi Florêncio retirando-se disfarçadamente, sem antever a influência que o seu significativo gesto exercera no ânimo de Adélia.
     Também Nazária e Raquel, com os respetivos esposos se despediram da irmã e da mãe, logo chamando um “táxi” que os foi levar a suas casas.
     E enquanto o auto rodava, iam fazendo os seus comentários ao que acabara de ocorrer.
     — Que lhes parece este caso? consultou Nazária Faria.
     — Deveras extraordinário! comentou o marido.
     — Extraordinaríssimo! corroborou o cunhado. Conheço Florêncio há já alguns anos, ainda do meu tempo de solteiro...
     — Disso ainda eu me lembro como se hoje fosse! acudia o marido de Raquel.
     Esta, com a ingenuidade da sua honestíssima vida, observou:
     — Isso não impede! Pois não pode muito bem ser que ele tencione casar com minha irmã?
     Sorriram-se os maridos, olhando um para o outro de soslaio e intencionalmente.
     — Ponho as minhas dúvidas! disse um.
     — Também eu! confirmou o outro, meneando a cabeça em ar de dúvida. Lembras-te das modinhas piegas que ele costumava cantarolar com aquela voz aflautada a querer fingir de soprano?
     — Quase imberbe, ampliou o primeiro, unhas polidas, sempre muito perfumado...
     — E nas Avenidas Novas!... pois nunca repararam?
     — É que não teríamos olhado com olhos de ver! ponderou Raquel. Ora conta lá...
     — Quando ele anda a passear com os seus modos efeminados, saracoteando um pouco os quadris com muita afetação para melhor dar nas vistas, de repente estuga o passo e assesta o monóculo, não para admirar as qualidades plásticas de uma mulher, mas a elegância de algum efebo vestido à última moda, de flor na botoeira e pedras luzidias nos botões dos punhos e do colarinho...
     — Acho isso muito natural, não te parece? perguntou Nazária à irmã. Não olham também as senhoras para a toilette das outras que passam?!
     — No meu entender, concluiu Raquel, o Florêncio parece ter muitos inimigos, o que não o impede de ser um excelente rapaz, imberbe mas elegante, cuidadoso e sobretudo de muito boas famílias...
 (...)

SOBRE O AUTOR

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Ladislau Batalha
Foto: Wikipédia, aqui.

LADISLAU BATALHA

Ladislau Batalha  (1856-1939) foi um escritor, aventureiro, professor, ativista político e deputado socialista. Viajou pelo mundo como marinheiro e usou os conhecimentos adquiridos nas viagens para lecionar e publicar dezenas de livros, entre os quais O Japão por Dentro (1904), Viagem aventurosa nas regiões do ideal (1908), Memórias e aventuras: reminiscências autobiográficas (1929), Línguas de África (?), Costumes Angoleses (?) e Florêncio (193?).
SABER MAIS

FICHA TÉCNICA

Florêncio, de Ladislau Batalha

1ª edição, 2025, Revisão e notas: João Máximo e Luís Chainho.
Copyright © João, Máximo e Luís Chainho, 2025.
96 páginas.
Todos os direitos reservados.

ASIN: (ebook)
ISBN:  979-8275643381 (capa mole)
ISBN:   (capa dura)

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