HENRIQUETA ou Uma Heroína Do Século XIXAntónio Joaquim Duarte Júnior
Clássicos de Literatura Gay / 23
Henriqueta Emília da Conceição e Sousa, nascida no Porto em 1840, escandalizou o país na segunda metade do século XIX: era uma conhecida prostituta e quadrilheira do bas-fond portuense, que se apresentava em público vestida de homem, fumando charutos e exibindo audaciosamente a sua amante, Teresa Maria de Jesus (Etelvina, no romance), uma bela costureira de dezoito anos. A história de vida de Henriqueta, investigada pelo tipógrafo António Joaquim Duarte Júnior, daria origem ao romance Henriqueta, ou Uma Heroína do Século XIX (1877) e, pouco depois, à peça de teatro Henriqueta, A Aventureira (1879), de Augusto Garraio; já em 1997, Mário Cláudio publicaria também nova adaptação ao teatro, a que deu o nome da heroína, Henriqueta Emília da Conceição.
António Fernando Cascais refere que “a representação das lésbicas, para além do estereótipo da jovem ingénua, desviada pela perfídia viciosa da mulher mais velha, em regra uma grande dama aristocrática ou uma perversa precetora estrangeira, encontra-se frequentemente associada à prostituição, cumulando a imagem já de si negativa de degradação moral e sensitiva da prostituta, de que é exemplo notório O Livro de Alda (1898), de Abel Botelho. Também este estereótipo comporta a sua exceção, com o retrato romanceado e dramatizado do singular caso da figura real de Henriqueta Emília da Conceição e Sousa, célebre meretriz e chefe de uma quadrilha portuense, que guarda em casa a cabeça decapitada da amante falecida, a quem ergueu um monumento funerário.” |
Clique nos logos para encomendar:
EXCERTOS
|
A morte de Etelvina produziu no espírito de Henriqueta uma impressão profundíssima.
Laços mais estreitos que os da amizade a prendiam à pobre vítima. Dizia o mundo que a pecadora era hermafrodita. Nega a ciência que semelhantes monstros existam na espécie humana; no entanto, a observação parece demonstrar o contrário. Como quer que seja, o certo é que Henriqueta sentia por Etelvina o que quer que fosse de estranho; adorava‑a; cercava‑a dos carinhos de que um amante extremoso cerca a mulher dos seus pensamentos; contemplava‑a com indizível ternura; rodeava‑a dos mais solícitos cuidados; e parecia aflita, indisposta, incomodada, se um homem qualquer fitava o objeto de seu amor com equívoca atenção. Correram boatos atrozes; registá‑los aqui seria útil para perfeita avaliação do carácter da pecadora; mas a moral e a própria dignidade opõem‑se ao nosso desejo; todos sabem que, de todos os vícios, é a luxúria o que mais extravagâncias oferece; vejam‑se os velhos impotentes e as mulheres condenadas a uma eterna abstinência, ou derrancadas por longos anos da vida licenciosa. Henriqueta estava neste último caso. Aquela organização estava gasta; os sentidos embotados; a sensibilidade exaurida. Que restava, portanto, à infeliz, devorada pelos tédios do mal, pelas negras nostalgias do cansaço? As monstruosidades do vício. Passemos adiante. (excerto do cap. XIII) |
Mendonça empalideceu.
— Correm por aí umas histórias acerca dessa mulher — replicou o pai de Emília — realmente assombrosas. Pelo que vejo, a criatura é levada de mil diabos. — Pois bem — continuou o negociante — Há cerca de um ano que a pecadora aparecia por aí frequentes vezes, acompanhada de uma rapariga de notável formosura, que passava por sua amante e a quem tributava um afeto nada vulgar. — Sua amante? — interrompeu o bacharel — Essa não é má! — É o que lhe digo. A mulher passa por ser hermafrodita e, seja verdade ou não seja, o certo é que ela persegue por aí as moças com mais empenho do que eu as perseguia no meu tempo. O bacharel fez um gesto de dúvida. O negociante continuou: — Nessa época, vivia Henriqueta com certo fausto e parecia fazer gosto da vida. Tinha trem, parelha, criados de farda, cães de preço, frequentava os teatros, etc. A rapariga acompanhava‑a sempre. A elegância do seu vestuário contrastava com a humildade da toilette da sua amiga, que parecia desadorar os vestidos custosos e outros enfeites tão procurados do belo sexo. O único objeto de luxo que trazia era um soberbo relógio de ouro, preso por uma grossa cadeia do mesmo metal, de que ainda hoje faz uso. — Excêntrica mulher! — exclamou o bacharel. (excerto do cap. XIX) |
SOBRE O AUTOR
ANTÓNIO JOAQUIM DUARTE JÚNIOR
|
António Joaquim Duarte Júnior foi tipógrafo no Comércio do Porto e jornalista correspondente do Jornal do Comércio, de Lisboa.
|
FICHA TÉCNICAHenriqueta ou Uma Heroína do Século XIX, de António Joaquim Duarte Júnior.
1ª edição, 2025, Revisão e notas: João Máximo e Luís Chainho. Copyright © João, Máximo e Luís Chainho, 2025. 240 páginas. Todos os direitos reservados. ISBN: 979-8230625728 (ebook) ISBN: 979-8309894079 (papel capa mole) |
PRÉ-VISUALIZAR
Clique na imagem à esquerda para pré-visualizar no Google Livros.
|
